sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Resenha de O Livro dos Médiuns - 1ª parte - capítulo IV - Sistemas

Kardec relaciona os três elementos reducionistas de interpretação na pesquisa dos fenômenos mediúnicos: a opinião pessoal desprovida de pesquisa que gera a crença cega e o preconceito. Essa tríade gerou todos os sistemas anti-espíritas desses fenômenos. Nesse contexto, ele derrubou o principal argumento dos adversários do Espiritismo: as divergências geradas no início de uma pesquisa, sobretudo porque a ciência espírita estuda fenômenos que variam tanto quanto as consciências encarnadas e desencarnadas que os promovem. Contudo, ainda que os fenômenos não seguissem uma repetição e, por isso, apresentassem alta
complexidade, houve rápido avanço do Espiritismo em relação às outras ciências da época.

Os detratores negaram, a priori, todos os fenômenos de efeito inteligente e propuseram teorias materialistas ou espiritualistas para os fenômenos de efeito físico. Por isso, o Codificador da doutrina espírita afirma: “Quando surge um fato novo, que não se enquadra em nenhuma ciência conhecida, o sábio, para o estudar, deve fazer abstração de sua ciência e dizer a si mesmo que se trata de um estudo novo, que não pode ser feito através de idéias preconcebidas” (Kardec, 2004)

Essa proposição é ratificada por José Herculano Pires quando enfatizou a questão do estudo metódico da doutrina espírita:

“Os que desejam combater o Espiritismo com lealdade, sem interesses sectários, devem, pois, antes de tudo, procurar conhecer a sua estrutura doutrinária. E a única maneira de conhecê-la, como já dizia Kardec, é a leitura, o estudo paciente, sensato, sério, das obras fundamentais da doutrina. Somente depois desse estudo, realizado sem idéias preconcebidas, pode um homem de bom-senso pronunciar-se sobre a doutrina” (Pires, 1989)
Leon Denis afirma:

“É necessário aliar os conhecimentos teóricos ao espírito de investigação e à elevação moral, para estar verdadeiramente apto a discernir no Espiritismo o bem do mal, o verdadeiro do falso, a realidade da ilusão. É preciso compenetrar-se do verdadeiro caráter da humanidade, das responsabilidades que acarreta, dos fins para que nós e concedida”. (Denis, 1994)

Passemos agora a sintetizar os sistemas elencados por Kardec:

· Sistema do charlatanismo: todos os fenômenos são considerados como prestidigitação ou ilusionismo. O fato de que alguns fenômenos possam ser imitados não quer dizer que não haja fenômenos mediúnicos autênticos.

· Sistema da loucura: as pessoas que os observavam eram insanas ou inválidas mentais ou, ainda, fanáticas. O Codificador enfatiza o fato de que as pessoas mais intelectualizadas na sociedade eram as mais interessadas pelo fenômeno mediúnico e o fanatismo está presente em todas as crenças e não somente na fenomenologia mediúnica: “Todas as idéias têm os seus fanáticos e seria necessário ser-se muito obtuso
para confundir o exagero de uma idéia com a própria idéia” (Kardec, 1998).

· Sistema da alucinação: o fenômeno não passa de uma alucinação coletiva ou de uma ilusão de óptica. Será que pessoas extremamente intelectualizadas, dotadas de senso crítico e poder aguçado de pesquisa seriam, todas elas, alucinadas ou inocentes ao ponto de serem ludibriadas por uma ilusão de óptica?

· Sistema do músculo estalante: o peritônio (1) que promove estalos. Como explicar batidas que se multiplicavam em vários locais e ao mesmo tempo? Vários peritônios? E o barulho que, nitidamente, surgia de dentro das paredes ou do interior do mobiliário?

· Sistema das causas físicas: sistema que leva em conta apenas a mecânica do movimento não considerando o fator variação. E o tipo de código inteligente usado na comunicação mediúnica? Seria inteligente uma mesa que não possui cérebro?

· Sistema do reflexo: a teoria da interferência do pensamento dos assistentes. A telepatia explica alguns fenômenos, não todavia, mesas girando no ar? Nem ditados em línguas “mortas”ou com previsões gerais sobre o futuro da humanidade!

· Sistema da alma coletiva: a alma do médium que se identifica com várias outras e forma uma comunicação espiritual. Inconsciente coletivo que dá informações particularíssimas sobre a vida de alguém?!

· Sistema pessimista, diabólico ou demoníaco: a teoria de que somente os demônios podem se comunicar com os chamados vivos. Nesse caso a soberania da justiça e bondade divinas é posta em xeque!

· Sistema otimista: teoria de que, ao morrer, o espírito possui toda a sabedoria e a soberana ciência. Uma agressão formal à lei de evolução!

· Sistema uniespírito ou monoespírito: a crença de que o único espírito que se manifesta é o de Jesus. Jesus é privilegiado na Criação e mistifica em algumas comunicações!

· Sistema da alma material: teoria de que a alma é o próprio perispírito. A alma sendo material está fadada à desagregação ou, quiçá ao desaparecimento! Negação total de toda a bondade divina e da lei de evolução!!

· Sistema multiespírita ou poliespírita: os fenômenos são produzidos pelos Espíritos desencarnados. Kardec, novamente, confronta a naturalidade do fenômeno mediúnico com a maravilhoso e o sobrenatural do dogmatismo!

O mestre do espírito exorta: “A melhor maneira de evitar os possíveis inconvenientes da prática espírita não é impedi-la, mas esclarecê-la” (Kardec, 1998) e afirma, no século XIX, conceitos que ainda, nos dias de hoje, continuam atualíssimos:

“Uma idéia que resiste a tantas investidas, que avança sem titubear através da chuva de dardos que lhe assestam, não patenteia sua força e a profundidade de suas raízes? É óbvio que o fato chama a atençãodos pensadores. Aliás, não são poucos os que, hoje em dia, admitem que alguma coisa de real existe no Espiritismo, e cogitam se, por acaso, não será ele um desses movimentos irresistíveis, que de tempos em tempos abalam as sociedades, para as transformar” (Kardec, 2006)
Eis a doutrina espírita que sobrevive através dos tempos, vencendo a má vontade, o fanatismo, a má fé e a incompreensão.

(1) Perônio Curto - o músculo de número 5:














Referências bibliográficas:
DENIS, Leon. No Invisível. Brasília, 15ª ed: FEB, 1994;
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo, 64ª ed: LAKE, 2004;
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. São Paulo, 20ª ed: LAKE, 1998;
KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. São Paulo, 27ª ed: LAKE, 2006;
PIRES, José Herculano. O Infinito e o Finito. São Paulo, 2ª ed: Correio Fraterno, 1989.

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