sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Resenha de O Livro dos Médiuns - 1ª parte - capítulo III - O Método

Allan Kardec falava em meados do século XIX: “O Espiritismo (...) se relaciona com todos os problemas da humanidade. Seu campo é imenso e devemos encará-lo sobretudo quanto às suas conseqüências” (Kardec, 1998). Essa afirmação é a base do método de Kardec, ou seja, partir da observação do fenômeno mediúnico para tirar dela as implicações filosóficas e religiosas que nos tornem seres mais lúcidos perante a Lei Divina ou Natural que, aliás, está em nossa própria consciência, ele constrói esse pensamento em O que é o Espiritismo: “O fim providencial das manifestações é convencer os incrédulos de que para o homem nem tudo acaba com a vida terrena, bem como dar aos crentes idéias mais exatas sobre a vida futura” (Kardec, 2006)

De acordo com sua preocupação constante no aspecto educacional da doutrina espírita ele afirma: “Toda pessoa que procura persuadir outra por meio de explicações ou de experiências, ensina” (Kardec, 1998). Ele, já naquela época, propunha um método de aprendizagem onde todos pudessem interagir, crescer intelectual e moralmente e, desta forma, conquistar a revolução social já idealizada pelos Espíritos no século retrasado.

Nessa metodologia de pesquisa o Codificador delimita o que é do campo dos fatos é o que deve fazer parte do campo da convicção à luz da razão. A pesquisa espírita demanda de maturidade espiritual para compreender o fenômeno sensível aos sentidos corporais, e, sobretudo, de ausência do preconceito que reduz a pesquisa a um sistema fechado de conhecimento. Por isso Kardec afirma:

“Acredita-se geralmente que para convencer é suficiente apresentar os fatos. Esse parece realmente o procedimento mais lógico, e no entanto a experiência mostra que nem sempre é o melhor, pois frequentemente encontramos pessoas que os fatos mais evidentes não convencem de maneira alguma” (Kardec, 1998).
Nesse contexto temos a afirmação de que todo conhecimento deve partir do conhecido para o desconhecido, do objetivo para o subjetivo, do sensível para o inteligível.

Se a pesquisa espírita demanda maturidade, perguntamos então: Como convencermos os incrédulos? Kardec responde essa pergunta com a seguinte orientação:
“Antes, pois, de tentar convencer um incrédulo, mesmo por meio dos fatos, convém assegurar-se de sua opinião sobre alma, ou seja, se ele crê na sua existência, na sua sobrevivência ao corpo, na sua individualidade após a morte. Se a resposta for negativa , será tempo perdido falar-lhe de Espíritos. Eis a regra. Não dizemos que não haja exceção. Mas nesse caso deve existir outra razão que o torne menos refratário”(Kardec, 1998).
Diante disso, ele divide os materialistas em duas classes: a primeira é dos que negam, de forma absoluta, a existência dos Espíritos, dizem eles: “mesmo se eu visse não aceitaria”. A segunda classe é a dos que o são por indiferença ou preguiça de estudar, de forma séria , a proposta espiritualista de cunho espírita. Uma a incredulidade preconcebida, a outra, a ignorante que precisa de lapidação. Ao lados dos materialistas, Kardec elenca os espiritualistas interesseiros ou de má fé, que são aqueles que acreditam, todavia não estão dispostos a sacrificar os prazeres materiais, pelo banquete espiritual da fé raciocinada. Além dessas categorias principais ainda são elencadas as variações, tais como: os incrédulos por decepção, por orgulho, por leviandade, etc.

Como decorrência dessa classificação, o Codificador estabelece os tipos de espíritas, a saber: os experimentadores, aqueles que consideram o Espiritismo apenas como uma ciência de observação, a esse respeito adverte o instrutor espiritual Alexandre:
“A paixão do fenômeno pode ser tão viciosa e destruidora para a alma, como a do álcool que embriaga e aniquila os centros da vida física! Vosso jogo de hipóteses, na maioria das circunstâncias, não passa de dança macabra dos raciocínios, fugindo às realidades universais e adiando, indefinidamente, a edificação real do espírito! Concordamos convosco em que a experimentação é necessária; que a pesquisa intelectual é o ponto de partida dos grandes empreendimentos evolutivos; que a curiosidade respeitável é mãe da ciência realizadora; que todo e qualquer processo de conhecimento exige campo de observação e trabalho, como é imprescindível o material didático, nas escolas mais simples. Entretanto, urge reconhecer que os elementos de aprendizagem não devem ser convertidos pelo aluno em meras expressões de brinquedo ou entretenimento".(Xavier, 1973)
Os Espíritas imperfeitos, aqueles que compreendem a base dos conhecimentos filosóficos e morais da doutrina espírita mas não a operacionalizam nos atos do cotidiano; os espíritas-cristãos, aqueles que primam pela transformação moral através da fé raciocinada. Além dessas três categorias há a subdivisão dos espíritas exaltados ou entusiastas que aceitam o fenômeno sem o crivo da razão e com confiança cega, sendo, assim, presas de mistificações espirituais de toda ordem.

Sintetizando o ensino de Kardec, temos a seguinte proposição:
“(...) os que crêem sem ter visto, porque leram e compreenderam, ao invés de superficiais são os mais ponderados. Ligando-se mais ao fundo do que à forma, os aspecto filosófico é para eles o principal, e os fenômenos propriamente ditos são apenas o acessório” (Kardec, 1998). José Herculano Pires parafraseando Gonzales Soriano, escreve: “O Espiritismo é, segundo a sua definição, 'a síntese essencial dos conhecimentos humanos aplicados à investigação da verdade'. É o pensamento debruçado sobre si mesmo para reajustar-se à realidade” (Pires, 1993).
A fim de conquistarmos tamanha envergadura evolutiva precisamos de um conhecimento polimático que não seccione a Unidade da Vida, mas a compreenda em suas múltiplas manifestações, Kardec sugere: “(...) os que desejam conhecer completamente uma ciência devem ler necessariamente tudo que foi escrito a respeito, ou pelo menos o principal, não se limitando a um único autor. (...) Cabe ao leitor separar o bom do mau, o verdadeiro do falso” (Kardec 1998).

Referências bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. São Paulo: Lake, 20ª ed, 1998;
KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. São Paulo: Lake, 27ª ed, 2006;
PIRES, José Herculano. Introdução à Filosofia Espírita. São Paulo: Feesp, 2ª ed, 1993;
XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 9ª ed, 1973.

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